Ponto de vista

Simon Lane

Dudu Garcia: Uma Nova Topografia

Dudu Garcia vive e trabalha no Rio de Janeiro, um lugar difícil de descrever e ainda assim perfeito para a expressão da personalidade. Garcia ajusta sua imagem conforme o humor, mas a arte é o que ele me descreveu como "uma necessidade vital". Como Yves Klein antes dele, Garcia entende a pintura sobretudo como um ato físico, que nasce em alguma medida da arte marcial, uma luta nobre pela perfeição dentro das leis estruturais da composição, mas também da necessidade de oferecer um reflexo do olho da mente pela mistura hábil da matéria. Jackson Pollock também poderia ser mencionado, enquanto Garcia cita Anselm Kiefer e Lucien Freud; quaisquer que sejam as diferenças entre eles, os quatro ilustres exemplos se deleitam, ou se deleitaram, nos limites extremos de textura concebíveis em duas dimensões. Apesar do uso predominante de materiais profundamente naturais como pedra, concreto e pó de tijolo, até musgo, a obra também reflete o mundo industrial, extensão lógica do contexto de seu ateliê, parte de uma enorme fábrica de chocolate desativada perto do centro da cidade, no uso de petróleo e produtos químicos sobre as pinturas e nas placas plásticas e outros elementos sintéticos muitas vezes fixados à tela. Um encontro, ou colisão, de opostos, natural e artificial, fornece a densidade necessária para entrar na moldura; e no entanto a sensação dominante, ao menos para mim, é a de que o tema, a origem do trabalho, tivesse sido extraído de algum planeta até então desconhecido com o auxílio de um satélite benevolente, dando ao artista a chance de criar seu próprio macrocosmo, primeiro registrado e depois recortado e posicionado como um quebra-cabeça fragmentário sobre a tela, com as áreas deixadas livres a lembrar, como dizem os irlandeses, a importância de "ser notado pela ausência". A criação de uma textura assim enriquecida, física e implícita, permite que as limitações de duas dimensões retornem às possibilidades misteriosas e abstratas de três, e oferece ao observador um mundo único, imaginado, ilusório. Desse modo a interpretação da superfície, ao mesmo tempo distante e intensamente pessoal, é trazida à existência pela perspectiva inteiramente original de Garcia. Nós, que observamos esta nova topografia tão generosamente estabelecida, precisamos lembrar que, se a arte é uma viagem, não precisamos de mapa nem de bagagem, apenas do desejo e da capacidade de nos perder na imaginação para viajar sem limites.

Simon Lane (poeta e artista)
Exposição Nova Topografia | Violet Ray Gallery | Nova York, EUA, 2008
Exposição Nova Topografia | Violet Ray Gallery | Nova York, EUA, 2008