DECOMPOSIÇÕES
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A pintura de Eduardo Garcia revela de imediato seu processo de feitura: São três superfícies, que aliadas em suas matérias específicas criam um estado expressivo. O suporte é sempre um têxtil que excede sua função de mero campo fixador, uma vez que sua própria textura é parte da linguagem (Eduardo é um especialista em tecidos). A etapa seguinte é a interferência da pasta texturizante sobre o tecido, que tanto pode ser esticado sobre o chassis convencional como colado sobre madeira. Esse último procedimento é uma experiência recente do artista para melhor controlar a aplicação que se verifica de fato a criação do corpo da pintura. Nessa segunda etapa, ocorrem as indicações de movimento, de uma plasticidade instável e ativa. Algumas reservas, “janelas", são produzidas para que o campo texturizado da pasta-corpo-pré-pictórica firme o testemunho do tecido base. A interferência final acontece quando o pigmento líquido, fluido, escorre sobre o todo anterior numa leve película, que não é cor, propriamente, mas pátina de leve transparência. A essência de suas vivências de surfista busca para alêm das meras imagens esgotadas. O íntimo registro, ainda que por instantes, na água. E é ela, a água, rainha das metamorfoses, o cerne de sua poética surgindo para além do liquefeito, em seu mais sutil estado – puro gás! Eduardo segura suas ondas com mãos de hábil domador para entragá-las vivas, encharcadas de beleza.
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Marcos Campos. Professor da História de Arte da Universidade Federal do Rio de Janeiro.