As pinturas de Dudu Garcia, mostram-nos coisas que a nossa época tende a evitar, como o transcorrer do tempo, que se expressa pela organicidade daquilo que viveu a intempérie, interagiu com os elementos até se transformar num objeto, um objeto reificado. De fato, a pintura de Dudu Garcia partilha da contemplação do real, da humildade frente ao evento do real, que encontramos no trompe-l’oeil do seicento ou no hiper-realismo americano. Porém, as semelhanças terminam aí, pois Dudu Garcia não representa a realidade, ele “faz” realidade. Num modo semelhante ao da personagem de Jorge Luís Borges, Pierre Menard, que escreve o Dom Quixote, sem copiá-lo, sem “refazê-lo”. Ele simplesmente “faz” o Quixote de Cervantes.
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Dudu Garcia é provavelmente o mais americano dos pintores cariocas, tendo sintonias com uma certa arte jovem californiana que está ganhando espaço no debate artístico de Los Angeles e além. Penso em artistas como Walead Beshty, que trabalham com uma outra objetividade, que não a da representação clássica, mas por reestabelecimento do objeto na sua própria essência de objeto, num equilíbrio delicado entre a representação e uma declaração duchampiana invertida. Os muros de concreto nos confrontam com uma realidade factual, e nos fazem perguntamos como chegamos a estar frente a ela. Há algo inquietante nessas massas de cimento que deveriam pesar muito para estar penduradas nas paredes, e que mesmo assim, fazem questão de serem massas de concreto, mesmo em suspensão.

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O atelier de Dudu Garcia se encontra no meio da maior obra que a cidade conheceu em muito tempo, entre as gruas e os caminhões de cimento estão os sobrados de um tempo pregresso da urbanidade carioca. Fragmentos desses sobrados parecem ter se perdido no atelier, assim como o fluxo do concreto que prenuncia a nova cidade. Ambas essas peles do urbano contemporâneo carioca se encontram aqui.
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Roberto Cabot (2014)

Neoconcreto 2, 2014 - 1,20 x 1,58m